Bibliografia Passiva
Umas Calças em Troca de um Desenho (Pejo)

Exposições, filmes, «happenings», há tudo isso em Pejo. Mas o fundamental é o convívio. Esta jovem veio da Checoslováquia. Fala checo e russo, línguas que ninguém entende. E consegue comunicar. O quê? Fraternidade.

-Umas calças por um desenho, queres?
- Mas que desenho?
- Este que tenho aqui.
- Isso? Para que quero eu isso? Se
ao menos representasse alguma coisa… -Que coisa? Não vês nada neste desenho?
-Que queres tu que eu veja?
- Estou certo de que vês alguma coisa. Ora diz lá.
-Veio linhas, traços, pontos. E depois?
- E isso não te diz nada? Que sentes dentro de ti ao olhar para a maneira como essas linhas, traços, pontos estão desenhados no papel? Tu vendes calças. Eu vendo desenhos. As tuas calças são muito bonitas: Não te apetecia ter um desenho destes em tua casa?
Um diálogo insólito. Um cenário fantástico montado na paisagem. Uma praça de uma pequena estância de turismo nos Alpes italianos. Os feirantes haviam chegado pela manhã: traziam lãs, casacos de couro, sapatos de camurça e calças de veludo para vender. Esperavam encontrar turistas, mas, inesperadamente, em vez dos veraneantes habituais, viam surgir uma gente diferente: italianos e estrangeiros, vestidos das mais diversas maneiras, afadigada a montar por toda a parte objectos esquisitos, coloridos, de materiais diversos, largados ao acaso nos caminhos,, junto, por vezes, a estranhas mensagens. Logo à entrada do lugarejo, um enorme cartaz representando uma bela mulher nua, cabelos louros caídos sobre as costas. Dir-se-ia um anúncio -de um sabonete ou de qualquer utensílio íntimo. Mas nele apenas se lê: «O Cosmódromo: pela primeira vez, todo um livro num manifesto.» Depois, o cartaz repete-se, desdobra-se, multiplica-se ao longo das paredes e dos muros, acompanhado de surpreendentes informações: «Uma vivência estranha, apaixonante; o amor -sexo na exploração do futurável». Que se pretende vender, com ele, afinal? Nada. Está ali para atrair a atenção dos olhares e
convívio da pequena localidade de Pejo, encravada nas montanhas -dos Alpes dolomitas, onde 250 artistas, vindos de todos os pontos de Itália e alguns oriundos de França, Mónaco, Portugal, Alemanha e até do Brasil e da Argentina, expõem a produto do seu trabalho: pinturas, esculturas, objectos artísticos sem catalogação prevista.
-Então, fechamos negócio?
Com os seus cabelos louros e ondulados caindo até aos ombros, vestido de linho branco, o rapaz parece mais um Cristo ou um homem santo oriental do que um jovem pintor de Trento a procurar adquirir umas belas calças de veludo negro com um desenho seu. Mas serão verdadeiramente as calças que o interessam? Ou a troca proposta representa uma forma de despertar o interesse da rapariga para a obra de arte? Cabelos platinados artificialmente, camiseiro justo sobre umas calças de bom corte, a maquilhagem do rosto actualizada, a rapariga reproduz o modelo proposto por qualquer revista de modas do nosso tempo. Tempo de que ela conhece, provavelmente, não mais do que os sinais exteriores- aqueles que lhe são fornecidos por uma publicidade, consumidora do seu dinheiro e da sua imaginação, no fundo, da sua liberdade.

Quanto vale uma obra de arte ?

-Quanto pedes pelo desenho?
-Umas calças. Estas.
- Fíco-te com ele. Pago-te as calças e dou-te mais 10 mil liras logo à tarde. É um belo desenho. Interessa-me.
-Este senhor é um coleccionador, vês? Perdeste uma bela oportunidade de ficar com uma obra de arte. Sabes tu quanto pode valer um desenho destes daqui a vinte anos? Talvez nada. Mas se valer alguma coisa, serão milhões. Os olhos da rapariga seguem atónitos a operação. Como pôde aquele senhor de ar despachado avaliar em tantas liras um simples pedaço de papel branco
riscado a tinta preta? Subitamente, sente que outros valores comerciáveis podem existir para lá do seu negócio ou daqueles negócios que ela conhece. E fica a olhar o homem que se afasta, canudo debaixo
(…)

o rapaz mostra-se decidido. Mete os desenhos na pasta e afasta-se. Alguns metros mais e parece ter esquecido já a operação frustrada. É então que a rapariga surge, nervosa, apressada, com uma última proposta.
-Dá-me aquela ali, sobre o largo, e podes levar as calças e o «anourack».
O rapaz volta atrás. E quanto o ajudante embrulha os artigos comprados pelo jovem gravador, a rapariga mira a gravura azul, e branca e negra, também, realizada no sentido da horizontal.O tamanho é quase o das outras duas, não acha? Eu, acho que as outras, sendo verticais, não ficavam bem sozinhas. Esta, sobre o comprido, basta-se a si própria. Creio que fica bem lá em casa.

Onde o turismo serve a arte…

Todos os anos as estâncias de turismo italiano, situadas no mar, na montanha ou junto das grandes cidades, organizam manifestações várias para atrair os turistas e dar incremento ao comércio local. As exposições e os festivais de arte pertencem ao número das iniciativas que mais gente faz acorrer. Montecatini é um exemplo flagrante de uma estação termal salva da decadência graças aos numerosos acontecimentos que preenchem a estação. Há cidades mortas que renascem do passado, animadas pelo interesse que ali se passa em determinada época do ano. Há lugares que ganham importância em virtude do que ali passou a acontecer. Pejo, pequena estância termal e de desportos de
Inverno, a meio caminho de Brescia, é um deles.
Uma velha e funda amizade une o médico Cerruti, administrador das águas termais de Pejo, a Armando Nizzi, proprietário de uma galeria de arte de Brescia. coleccionador apaixonado e amigo
íntímo de Fontana e de Bruno Munari, fundador do centro operativo Sincron, defensor de uma arte que se pretende não «artística», mas operacional, fruto de uma pesquisa realizada colectivamente, no sentido da descoberta de novos meios de comunicação audiovisuais. Foi Nizzi quem propôs ao dr. Cerruti a realização de uma jornada de arte de vanguarda em
Pejo. E na certeza de instalação gratuita para quantos acorressem ao seu chamamento, garantida pelos hoteleiros de Pejo e pela administração das termas, enviou cerca de 22 mil convites a amigos e conhecidos espalhados por todo o Mundo, pessoas interessadas nos problemas da arte e da comunicação. Responderam cerca de 250 artistas. Muitos deles trouxeram com as mulheres, os filhos, ou simplesmente alguns amigos.
Na opinião de Nizzi, a arte está morta. A sua própria galeria considera-a manifestação de um tipo de comércio e de difusão da arte destituído de interesse. Abandoná-la-á em breve para se dedicar exclusivamente ao Sincron, que organizará grupos de pesquisa e manifestações deste tipo, abertas a todos quantos aceitem que a arte é essencialmente um meio de investigação para o encontro de formas de expressão cada vez mais amplas em profundidade e em extensão, tendente a responder às necessidades estéticas de todos os homens. «O convívio - afirma Nizzi -bem como o confronto das ideias e do trabalho parecem-me os únicos caminhos válidos para o fim que nos propomos.» No fundo, é talvez isto o que sentem estas duas centenas de artistas que, de perto ou de longe, marcaram encontro com o desconhecido e não faltaram.
«Exposições, «múltiplos», envolvimentos, «happenings», cinema experimental, poesia visual e fonética, música electrónica, manifestos murais, objectos voadores, estruturas pneumáticas, cozinha experimental internacional» - prometem os cartazes que anunciam a programação não programada do que irá passar durante onze dias, em Pejo.

A paz entre as montanhas

O Sol passa através das nuvens e desce até ao vale. Lá em cima, os cumes cobertos de neves eternas resplandecem ao Sol do meio-dia. Viemos de Lisboa, viemos de Trento, de Roma, Paris ou Trieste com idade quase para sermos pais e filhos e somos apenas companheiros, sentados na relva, a 1200 metros de altitude, o rosto oferecido ao calor solar que nos bronzeia a pele, sedente e saudosa de um Verão marinho. Cansamo-nos de falar. Em italiano, em francês, em inglês, esgotamos um pouco o que tínhamos para dizer uns aos outros neste desejo absurdo de nos aproximarmos, resolvendo em palavras uma distância de anos e quilómetros, de experiências, de latitudes. Daqui a algum tempo, estaremos de novo distanciados. Voltaremos sequer a ver-nos? Longe fica a nossa cidade. É lá a nossa vida, amarga e doce - o que ela é, como nos foi dada e como nós a fizemos. Maria Rosa deixará Trento por Milão, à procura de fazer teatro que na terra lhe não consentem. Depois, partirá para Londres. Luciano estará na Catânia a cumprir serviço militar. Se um dia nos voltarmos a ver, ele será um outro homem. Nós seremos todos outros homens e outras mulheres «Gostaria de te fotografar para te fixar como és neste momento» - diz alguém a alguém a meu lado. Agora Luciano é apenas um jovem pintor vestido de branco, os cabelos longos e ondulados caídos até aos ombros, como um Cristo novo, entre os homens e as montanhas. Sentado na relva, os seus dedos percorrem a viola e a sua voz, transparente, canta uma canção de Bob Dylan: «Canção para Um Amigo».
-Que vieste procurar a Pejo - pergunto-lhe.
- Um ambiente.
- E tu, Maria Rosa?
-Tenho muitas ideias, mas não estou segura delas. Vim aqui para me esclarecer.
Filha de um modesto funcionário de Finanças, de Trento, Maria Rosa fez um curso comercial, mas recusa totalmente a ideia de um dia trabalhar num escritório. Fará teatro ou fotografia ou qualquer outra coisa. Jamais trabalhará fechada numa sala, registando números, escrevendo cartas(…)

Porque veio Anna Vanchieri a Pejo, quando neste momento mantém uma exposição individual em Veneza? Pela simples razão de que todo o artista precisa de estímulo para viver e esse estímulo encontra-o nos outros, no confronto e no convívio com os outros.
«No fundo, que vim encontrar aqui? Coragem para seguir em frente. Algumas das coisas que vi aqui mostraram-me que muita gente anda por caminhos muito próximos dos meus:
Alguns chegaram até a conclusões a que eu esperava chegar só daqui a algum tempo. Significa que o meu trabalho foi inútil? De modo algum. O importante é o facto de o impulso ser comum. Ele nos levará num sentido: o de fazer a Humanidade viver melhor.»
«Uma jóia, que, é? Uma estrutura. A jóia pela jóia não me diverte»

As palavras estão mortas

Uma folha de cartolina branca onde se destaca uma frase gravada a negro: Deus é um ser perfeitíssimo como um Volkswagen que… anda… anda… anda… anda…»
De mistura com as palavras várias, Volkswagen pequeninos indicam a marcha desta perfeição que se prolonga até ao infinito.
Ao lado, uma pequena nota indica o nome do autor: Emílio Isgró, siciliano, poeta e jornalista, residente em Milão.
Um pouco mais adiante, do mesmo autor, várias folhas dactilografadas, cartas, manifestos, nos quais os caracteres da máquina foram cuidadosamente riscados como uma passagem que se deseja cortar por falta de sentido ou oportunidade.
Para Isgró, que começou por ser um poeta tradicional, com obras publicadas nas editoriais Mondadori e Einaudi, a palavra está morta. Como Mallarmé - diz - creio que a palavra acabou. Escrever exclusivamente com palavras cheira-me a masturbação». Por isso as riscas nos seus textos ou lhes junta sinais gráficos ou objectos desenhados,
«Riscar - afirma - é já uma linguagem. Uma linguagem. Uma linguagem que traduz um protesto. Porque hão-de os poetas exprimirem-se apenas com palavras? A palavra cerceia a liberdade do escritor. Todos os grandes escritores protestaram contra a linguagem tradicional.
«Não foi o que fizeram Tolstoi, Joyce? Os escritores de hoje terão de descobrir a sua.
«Quanto a mim, ela será uma linguagem sob a linguagem através da qual os homens procurarão comunicar uns com os outros. Neste caminho a comunicação visual parece-me extremamente importante.»
Inspirando-se também em Mallarmé e em Apolinnaire, um outro poeta concreto, Franco Verdi, de Verona, professor de Filosofia e colaborador do urbanista Marco Lucat, na Escola Politécnica de Milão, tem uma opinião diferente de Isgró. A afirmação, frequente em Itália, de que a palavra está gasta, Verdi contrapõe a ideia de que ela não é usada em todas as suas possibilidades.
«A poesia concreta - diz - pode interessar-se por uma palavra, mas também por fragmentos de uma palavra ou pela simples junção de algumas letras. Usando as palavras, organizadas dentro da métrica tradicional,, demo-nos conta que conseguíamos o máximo de expressividade dilatanto a palavra, ao nível tipográfico, pela página, ultrapassando-a, se possível. Acontece então que, em muitos casos, a palavra sai do livro e se torna objecto estético. De resto, devo dizer que a grande importância de todos estes trabalhos de pesquisa foi a de levarem-nos a reconhecer que a poesia não está desligada, no fundo, de todas as outros formas criadoras: pintura, cinema, música, urbanismo, etc., na medida em que se integra o urbanista Marco Lucat na organização de uma rede de canais, no âmbito da planificação e arranjo da paisagem. Se a isto se pode chamar ou não poesia, confesso que não me interessa. O que me importa é o trabalho interdisciplinar. E sentir que eu, professor de Filosofia e, quando muito, poeta, posso colaborar com outros operadores estéticos na criação de um ambiente agradável para os outros homens, do presente e do futuro. Porque o fim último da pesquisa é este: dar aos homens a possibilidade de viver melhor.»
Este o sentido, pensamos, do encontro de Pejo. Cada artista trouxe consigo o produto da sua experiência e do seu trabalho, transmitindo num simples objecto o conjunto das suas preocupações. E cada objecto, analisado em si mesmo, não é mais do que uma expressão fragmentada da realidade, ele próprio realidade, abstractamente organizada e una no seio do quotidiano múltiplo.
Mas quando estes homens e estas mulheres se encontram, discutindo o seu trabalho, entre-ajudando-se na apresentação das suas obras, buscando o melhor meio de as dar aos outros, permutando-as, explicando-as, oferecendo-as como vivências aos camponeses da aldeia próxima, ao padre, ao síndicos que à noite se juntam ao grupo de artistas que se reúne no centro de convívio de Pejo, não podemos deixar de sentir que, para lá das manifestações individuais, uma inquietação geral os liga. As pessoas, em Pejo, eram livres de se encontrarem ou não. Nada as obrigava a fazer nada. Nenhum programa rígido as compelia para este ou aquele ponto. E; contudo, encontravam-se. Ficavam justas, até altas horas, a conversar, a dançar, a planear acções para o dia seguinte. Houve sessões de música electrónica e «happenings» mais ou menos bem conseguidos. Houve cinema experimental e poesia concreta e sessões de esculturas de fumo. Houve tudo o que se anunciava e tudo o mais que as pessoas inventaram e desejaram fazer. Sem competição: em Pejo não houve júri de selecção, nem prémios. Durante onze dias, numa pequena estância de turismo, perdida entre as montanhas dos Alpes italianos, longe das tempestades deste planeta agitado, três centenas quase de pintores, escultores, poetas e cineastas, «operadores estéticos», como a si próprio se intitulam, relegando o título de «artistas», dedicaram-se a descobrir e a ensaiar na prática esta coisa tão simples e simultâneamente tão difícil: comunicar. Os meios, o bem de comunicar. Pela arte? Pela arte ou pela anti-arte. O importante é dar a cada homem a possibilidade de se exprimir.
Esteticamente, também. Múltiplos são os caminhos da descoberta. Nem todos igualmente ricos, forçosamente. Mas nenhum pode ser considerado, de antemão, estéril.

Maria Antónia Palla, O Século Ilustrado, nº 1657, 1969/10/04